Milton Hatoum: O Dia da Espera

06 dezembro, 2017Flávia Frota

 

Flávia Frota e Milton Hatoum – UEA – Manaus – 5/12/2017

Milton Hatoum: O Dia da Espera

Sobre quantas noites eu esperei por este dia

Jovens e Leitura

Numa época em que a juventude não gosta de ler, tempo comandado por influenciadores digitais – com indicações duvidosas e estímulo ao consumismo desenfreado – eis que, contradizendo todas estas tendências, me alegro ao ver o auditório da Escola Normal Superior – ENS – lotado de jovens para assistirem a uma palestra de Milton Hatoum.

Público leitor do nosso conterrâneo, o amazonense de sangue libanês, considerado o maior escritor brasileiro vivo que ainda publica. A respeito da juventude apreciar suas publicações, Milton brinca: “É curioso isso porque em nenhum dos meus livros aparecem as palavras: celular, internet e redes sociais”. Ele esclarece que, o fato das escolas estarem indicando suas obras, contribui muito para a presença dele entre o público mais moço.

Olhão de Boto

Na Universidade do Estado do Amazonas – UEA – Hatoum nos agraciou com um bate-papo marcado pela sua simplicidade, fala mansa, pausada e aquele olhar, que apesar de sereno, nos remete a uma passagem de Dois Irmãos, a respeito de Yacub:

“Domingas também se deixava encantar por aquele olhar. Dizia: ‘Esse gêmeo tem olhão de boto; se deixar, ele leva todo mundo para o fundo do rio’. Não, ele não arrastou ninguém para a cidade encantada. Esse encantamento dos olhos deixava expectativas e promessas no ar”.

Conflitos

O autor explica que não adianta um Romance de Aprendizado tratar do contemporâneo, é necessário haver um afastamento temporal. O que interessa para a literatura são as relações dos personagens, os questionamentos existenciais, conflitos do interior, dramas familiares e confrontos sociais. Como nos mostram estes trechos nos quais Martim se refere a seu pai:

“Vivemos sob o mesmo teto, mas longe um do outro. Aceitamos isso, talvez por sabermos que já estamos separados, como dois prisioneiros em celas vizinhas”.

“Deixei um bilhete no quarto do meu pai: ‘Estou trabalhando na Livraria Encontro. Não preciso de mesada’”.

[A Noite da Espera]

Processo Criativo

Perguntado sobre o processo de criação de A Noite da Espera, o escritor amazonense acrescenta, “eu passei dez anos pensando de uma maneira obsessiva”. E nos diz que durante a escrita surge o inesperado, a voz do inconsciente se faz ouvir.

Ainda esclarece que o Romance de Formação não se dirige ao público jovem, porque este tipo de narrativa se direciona para o passado. E complementa, “eu rejuvenesço e me revigoro quando falo da minha juventude”, mesmo tratando do tema de forma indireta.

Quando indagado sobre a literatura alternativa e os aspirantes a escritores, ele afirma que “da quantidade sai a qualidade”. Alguns vão se destacar e outros não, mas a boa leitura e o exercício exaustivo são fundamentais.

Memórias

O que mais me seduz na produção literária do Arquiteto da Memória é justamente o fato dele recriar lembranças que eu só conhecia através da oralidade. Causos relatados por alguns poucos sobreviventes de um tempo que não mais existe.

Em seus livros eu me reconheço, lembro de histórias contadas pela Tia Cy – quem muito me influencia a amar Manaus e conhecer o passado da cidade. Até que vem o Milton e desvenda tudo isso em narrativas cuidadosamente redigidas, abrindo as portas para um universo desconhecido, ao mesmo tempo extraordinário e nebuloso.

Raízes

Relatos de um Certo Oriente foi a primeira de suas obras a me deslumbrar. A precisão das palavras, a nitidez dos cenários e principalmente, as reflexões propostas, me levaram imediatamente a perceber que a trama tratava das minhas próprias inquietudes.

Eu me vi diante das minhas raízes mais profundas, e ao mesmo tempo, meticulosamente articuladas para desaparecerem junto com Manaus: A cidade que submergiu com a devastação da natureza e a destruição arquitetônica e cultural.

Sem exotismo e com o talento dos gênios, o romancista escolhe vocábulos que me enchem de amor pela nossa terra, trazem um passado distante e minha avó de volta, quando leio, por exemplo:

As pás do ventilador, o único zunido no mormaço da sala”.  [Dois Irmãos]

A palavra “mormaço”, hoje em desuso, me leva ao “alpendre” da casa da minha avó. E logo revejo o “xarão” onde ela guardava os copos.

E assim também se dá com “um cheiro de açucena vinha do mato” [A Cidade Ilhada], ou “metamorfoseando em anjo” [Dois Irmãos] me fazendo concluir uma “viagem no tempo: o visível, o invisível na opacidade da memória” [Um Solitário à Espreita”]

Cidade Flutuante

A destruição truculenta da cidade flutuante é mais um capítulo da nossa história, engenhosamente encoberto, tão bem demonstrado em Dois Irmãos:

“Assistiam atônitos à demolição da Cidade Flutuante. Os moradores xingavam os demolidores, não queriam morar longe do pequeno porto, longe do rio. […] Mas os policiais impediam a entrada no bairro”.

“Chorou muito enquanto arrancavam os tabiques, cortavam as amarras dos troncos flutuantes, golpeavam brutamente os finos pilares de madeira. […] Tudo se desfez num só dia, o bairro todo desapareceu. Os troncos ficaram flutuando, até serem engolidos pela noite”.

“Olhava com assombro e tristeza a cidade que se mutilava e crescia ao mesmo tempo, afastada do porto e do rio, irreconhecível com o seu passado”.

[Dois Irmãos]

Índia

Domingas, a índia nada romantizada, nos abre os olhos para desigualdades gritantes e despercebidas que se passam como “naturais” dentro dos nossos lares.

A única imagem que restou do rosto de Domingas. Posso reconhecer seu riso nas poucas vezes que ela riu, e imaginar seus olhos graúdos, rasgados e perdidos em algum lugar do passado”.

Os únicos gestos que lhe devolviam durante a noite a dignidade que ela perdia durante o dia”. [Dois Irmãos].

A lavadeira passou a viver como uma serviçal que impõe respeito, e não mais como uma escrava”. [Relatos de um Certo Oriente].

Transitoriedade

Ao fazer a leitura de uma obra deste escritor, surge o questionamento sobre a nossa insignificância diante da grandeza do mundo, do tempo e até da maldade. A decadência e a transitoriedade da vida mostram o seu poder inexorável!

E é essa submersão que nos permite uma análise profunda sobre quem somos nós e o que estamos fazendo aqui. Há uma descarga de sentimentos ocultados nos escaninhos da alma, que ressurgem para nos perturbar e ao mesmo tempo nos fazer mais fortes, mais conscientes.

Quintal de Casa

Obrigada, Milton! Por retratar fidedignamente o quintal da nossa casa e os escombros do nosso passado. E por revestir tudo isso de ficção, para nos atrair através da leitura e nos modificar lá no fundo, ao tocar a nossa essência.

Depois de ler seus livros, ninguém será o mesmo. E tudo isso tem uma ênfase ainda maior, para os amazonenses, um resgate de nossas raízes que ainda sangram a golpes de machado e de motosserra.

Só a memória sobrevive, e a literatura tem o poder de recriá-la.

A esperança e a amargura… são parecidas”. [Dois Irmãos]

Quantas Noites eu Esperei por Este Dia

Meu ritual noturno exige leitura antes de dormir. Às vezes, quando a insônia resolve me acordar, é ao YouTube que eu recorro. Foi assim que descobri uma série de palestras e entrevistas de Milton Hatoum, as quais já ouvi praticamente todas, e por repetidas vezes – com fone de ouvido e olhos fechados.

Houve, anteriormente, uma apresentação de Hatoum na UEA, acredito que tenha sido ano passado. Por algum motivo eu não pude comparecer, e fiquei chateada com isso, mas aguardava a próxima ocasião, E enquanto a oportunidade não chegava, marcava presença através da plataforma digital.

Durante estas madrugadas literárias na companhia de Milton, eu aprendia com ele que “escrever significa reescrever” e ansiava pelo o momento de ouvi-lo ao vivo, conhecê-lo de perto e ter ao menos um livro autografado por suas mãos.

O Dia da Espera

E assim, nesta terça-feira [5] foi o Dia da Espera! Nosso escritor chegou por volta das 10h15 da manhã e em pouco tempo meus sonhos estavam realizados.

Além de ser inteligente – isso não precisa nem dizer – o célebre romancista tratou a todos amavelmente e mostrou-se um gentleman ao receber os convidados para a sessão de autógrafos, o que me deixou com os “olhos embaciados”.

Ele provou a máxima de que menos é mais. Sua magnitude deu o tom da simplicidade do gênio, que brilha pelo que nos faz sentir através de suas obras.

Milton, pense em uma leitora realizada!!! Está na cara de felicidade! Está na foto de tiete! 🙂

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Fotos: Acervo de Flávia Frota e Facebook da UEA

Anexo

Compartilho aqui uma relíquia. Carta manuscrita por Milton Hatoum para o professor Odenildo Sena, datada de 17 de abril de 2000.

UMA CARTAdo Milton Hatoum Sempre gostei. Mas agora estou ainda mais convencido de que mudanças são essenciais na vida…

Publicado por Odenildo Sena em Quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A Ventania

 

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